segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Denise Dummont fala sobre seu pai, Humberto Teixeira



Provavelmente você já ouviu algumas das seguintes canções: Asa Branca, Baião ("Eu vou mostrar pra vocês / Como se dança o baião / E quem quiser aprender / É favor presta atenção"), Assum Preto, Baião de Dois ou Adeus Maria Fulô. Pouca gente sabe, porém, os nomes dos autores dessas músicas. Quem apostou em Luiz Gonzaga acertou, mas não deve se gabar, pois provavelmente se esqueceu do parceiro dele, Humberto Teixeira. Morto em 1979, o cearense Teixeira ganha agora um filme para refrescar a memória coletiva e corrigir o esquecimento sobre o compositor, advogado e deputado federal que ajudou na criação da lei de direitos autorais. O Homem que Engarrafava Nuvens estreia nesta sexta-feira, reunindo depoimentos de Gilberto Gil, Bebel Gilberto, Belchior, Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), David Byrne (Talking Heads), Otto e Daniel Filho - além de muita música. A direção é de Lírio Ferreira, o mesmo de O Baile Perfumado (1997), Árido Movie (2004) e Cartola (2007), para quem a obra pode mostrar como Teixiera ajudou a transformar o baião, um ritmo regional, em parte do alicerce da MPB, ao lado do samba.

A produção de O Homem que Engarrafava Nuvens coube à filha do próprio Teixeira, a atriz Denise Dummont - que atuou em filmes como O Beijo da Mulher Aranha (1985) e A Era do Rádio (1987), de Woody Allen. Na entrevista a seguir, Denise conta como sua relação com a música do pai passou do preconceito à admiração e critica a "ignorância" de artistas que, na opinião dela, cantam as canções de Teixeira sem conhecê-lo. Confira o trailer do filme.

Logo no início, a senhora justifica o filme como meio de conhecer melhor seu pai. Como era a relação entre vocês?

O papai era uma pessoa doce e carinhosa comigo quando criança. Mas quando eu comecei a crescer, ele se tornou, como disse a minha mãe no documentário, um machão nordestino, muito rígido. Ele não deixava eu sair, ir às festas, ter namorado. Então a gente batia muito de frente. Hoje em dia, depois de tanta pesquisa e de entender melhor ele como adulto e ver as coisas pelas quais ele passou, eu o entendo melhor. Eu acho também que, no fim da vida, ele estava mais deprimido. Reagia a essas coisas, que eu jovem não entendia muito bem. Era uma relação complicada. Tanto que meu sobrenome teve de ser Dummont, porque ele me proibiu de usar Teixeira. Ele não queria que eu fosse atriz.

A senhora viveu com ele por quanto tempo?

Meus pais se separaram quando eu tinha 5 anos. Minha mãe foi morar em Nova York e eu fiquei com o meu pai. Morei com ele até me casar, aos 19 anos, com Cláudio Marzo. Antes disso, fui para Nova York fazer faculdade de drama, porque na época não existia curso de ator nas universidades no Brasil.
A senhora diz que, apesar de ser filha do "doutor do baião", foi criada ouvindo música clássica como influência da sua mãe, além de MPB e rock. Tinha preconceito com a música que seu pai fazia e representava?

Claro. Tinha todo. Eu achava cafona. Eu nunca tinha visitado o Nordeste até começar esse projeto. Eu não entendia a linguagem usada, eu achava cafona e esquisita essa coisa de falar errado. Como meu pai, que fez duas faculdades e era de uma família onde a formação acadêmica era tão importante, podia compor músicas com aquele jeito de falar? Agora eu compreendo que esse é o jeito de o povo falar, mas na época não entendia. Eu era uma garota esnobe de Ipanema. Não tinha a inteligência suficiente para entender a força dessa obra, do que ele estava falando. Mas eu acredito que isso tinha a ver com o fato de ele ser um pai careta, rígido e eu, como adolescente, tinha que me rebelar.

A partir de quando isso mudou?

Eu me apaixonei durante este projeto. Contudo, passei a aceitar e olhar o gênero há mais tempo. Eu achava bacana que o Caetano Veloso tivesse gravado canções do meu pai na época do exílio, que os Mutantes gravassem. Mas não me aproximava muito, porque chegar perto da obra era chegar perto do meu pai.

O cantor americano David Byrne se refere a Humberto Teixeira como o "homem invisível". A senhora também tinha essa impressão quando falava para as pessoas quem era seu pai?

Eu tinha e tenho ainda. A situação está melhorando muito e me sinto gratificada pelo fato de esse movimento que a gente iniciou estar surtindo efeito. No entanto, eu estava em Recife em dezembro passado para a festa de aniversário de cem anos de nascimento de Luiz Gonzaga. Teve uma super homenagem a ele e em nenhum momento se falou de Humberto Teixeira. É uma ignorância que impera e que ele mesmo gerou. Eu não estou culpando ninguém. Eu fui ver a estréia do filme Lula, O Filho do Brasil, em Brasília, e tocaram Asa Branca no início, que foi apresentada como uma das obras mais importantes da música brasileira, de Luiz Gonzaga.

Qual é sua reação nesses momentos?

Dá vontade de gritar: "E Humberto Teixeira!" Então, este filme é o meu grito.

A senhora acredita que o filme conseguirá tocar os espectadores, a despeito de suas relações com a música do seu pai?

O filme é muito pessoal, mas eu posso falar da minha experiência, de ter passado esse último ano mostrando-o em festivais pelo mundo. É muito interessante observar as reações das pessoas. Ele provoca emoções fortes em quem não é do Nordeste nem do Brasil. A gente o exibiu em Israel, Holanda, Colômbia, Estados Unidos, França, e as pessoas reagem de maneiras diferentes. Quem conhece a obra se emociona por se reconhecer ali, ouvir as músicas da infância. Outros se emocionam porque não sabiam: "Meu Deus, eu conhecia essa música a vida inteira e não tinha ideia. Nunca ouvi falar do seu pai", dizem. A maioria conhecia Luiz Gonzaga, mas não conhecia o meu pai. Os gringos adoram a música. Sem nenhum envolvimento ou compromisso cultural.

Em qual exibição ficou mais emocionada?

As sessões no Nordeste, em Fortaleza e Recife, foram para mim extremamente emocionantes, porque a platéia cantava junto. É lindo. Cantam baixinho como o maior respeito.

Era o que a senhora esperava?

Eu nem esperava tanto. Eu queria apenas resgatar a memória do meu pai e descobrir o que eu não sabia, e acho que Lírio foi além de qualquer sonho que eu tenha tido. Então, para mim, é muito emocionante.
Conseguiu o que queria: conhecer melhor o seu pai e torná-lo conhecido?

Eu conheci ele melhor, sim. Conheci muitas coisas dele. Fiquei feliz com o que descobri. Poderia ter me decepcionado, descoberto que ele era um canalha. Descobri que ele era um homem de bem. E não comecei este projeto querendo fazer uma exaltação a ele. Eu realmente queria conhecê-lo. Estou saindo disso com um orgulho de ser filha dele. Em relação a torná-lo conhecido, a gente vai saber a partir desta semana.


Fonte: Veja.com


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